Thainá Carvalho

Há em todo caso

um punho

a ser engolido

o amor, por exemplo

e seu choro em concha

ao pé do ouvido

ou uma distensão azul

muito fina e muito azul

um golpe na pupila de quem dorme

sob o céu descoberto

de meio-dia.

Uma agonia, esse punho

preso na garganta

de quem vive e se derrama

um pouco

de quem morre e descansa

um pouco

de toda forma, um grito perverso

e primordial

esse punho que geme

gutural na noite

no sono em revolta

a mão se abrindo, abrindo, toda

vem vindo, aberta

vômito

a coragem toda

saindo pela boca.

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(colagem digital: Thainá Carvalho)

Nem tudo está perdido

ouça

quando te dou a mão

em busca de ninho

oferecendo em contrapartida

um repouso lunar

nem tudo está perdido

ouça

quando nosso dedos se cruzam

no universo infinito,

somos extraterrestres.

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(colagem manual: Thainá Carvalho)

Este é o último poema do ano

não há de dizer muito

sabe, o tempo se gastou

junto com as palavras miúdas

e o sonho do sonho dormido

em um tempo mais antigo ainda

sabe, há algo se espalhando

pelas janelas e quintais

com a delicadeza uterina

das patas de um inseto

(qualquer, pois sei que todos amam)

essa verdade das flores e dos seres

tão humanos

que

.

.

.

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(colagem digital: Thainá Carvalho)

Há uma luz intensa vinda dos nossos anos

e dos nossos passos sobre a terra

algo de constelação e areia

eterno castelo encravado na pedra

Colocamos as mãos sobre o rosto

para ver essa luz como um milagre

algo de espanto e melancolia

uma coisa, talvez, sem necessidade

que aperta o peito e sai em sorrisos

que aperta o peito e fica em lágrimas

e logo ali, onde observamos o brilho morto das estrelas

vemos também as chamas profundas

acidente dos nossos olhos

fecunda luz que fere e queima.

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(colagem digital: Thainá Carvalho)

Sempre o som

esse som

agudo e seco

sussurro

e medo

não sei de onde vem

ou a quem pertence

esse ganido

essa semente

de algum pulmão

ser minúsculo

e coisa ao mesmo tempo

que aparece

quando menos espero

das pétalas das flores

ou das caixas de sapato

esse som

humilde e severo

me persegue

julgando-se

jogando-me

nas paredes

às vezes está em mim

implode os dentes

grita do fígado

em ato contínuo

sempre o som

e vêm os vizinhos

perguntar

que barulho é este

e eu respondo, em lágrimas

-são as faltas

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Thainá Carvalho

Thainá Carvalho

Escritora, curadora e revisora. “As coisas andam meio desalmadas” (Penalux, 2020). Editora da Revista Desvario e coorganizadora do Sarauema. ig @oxente_thaina